A entrega
O dono do Passat o levou até a minha casa no bairro Portão, mas eu tinha que levar o sujeito de volta ao bairro Fazendinha. Pra quem mora em Beverly Hills, Batel ou Alphaville, o Fazendinha fica bem longe, mais ou menos na borda do mundo.
Era um domingo à noite com neblina e o lobos uivavam no Fazendinha.
A medida que me adentrava no bairro do nosso amigo, o antigo proprietário naturalmente foi conversando comigo, porém os assuntos não estavam sendo dos mais alentadores.
Ele revelou que era ex-policial e que havia muitas pessoas que não eram muito chegados a sua pessoa e que muitos deles conheciam detalhes da vida dele, inclusive o carro que ele usava, no caso, o que eu estava dirigindo naquele instante. Como eu ia pagar com cheques pré-datados pensei “ah, ele só está fazendo medo pra eu não sacanear com o pagamento”. Mas a realidade mostrou-se mais aterrorizante.
Próximo do destino, as ruas ficavam mais escuras, a neblina e o cheiro de carne repousavam mais intensamente pelo ar. Então ele me instruiu que ao voltar para minha casa parasse o carro e abastecesse imediatamente, já que a gasolina estava na reserva. Um frio correu pela espinha. Parei a uma quadra de sua casa (o pavimento não havia chegado àquela rua do Fazendinha e havia chovido na véspera). Antes de ele saltar, tateou os bolsos e disse “Puta merda, esqueci o meu revólver. Mas ok, pode ir”.
A essa altura estava mais preocupado em parar em uma farmácia para providenciar uma fralda do que abastecer o Passatão. Mas a uma velocidade nunca vista antes no bairro da Fazendinha atravessei as ruas esburacadas e sinistras e consegui abastecer o veículo e prosseguir ao meu destino de casa.
